Colapso do Ueno Bank e crise política expõem os riscos de internacionalizar negócios sem estudar o destino escolhido.
WASHINGTON, D.C., 6 de novembro de 2026 – Durante os últimos anos, o Paraguai se tornou uma alternativa atraente para brasileiros interessados em transferir empresas, investir ou mudar de país. Impostos competitivos, incentivos à produção e regimes especiais de exportação ajudaram a construir a imagem de um ambiente favorável aos negócios.
Mas a crise desta semana colocou essa percepção à prova. A intervenção do Banco Central no Ueno Bank, instituição digital que atendia cerca de 3 milhões de clientes, bloqueou o acesso de milhões de pessoas às suas contas e atingiu recursos públicos, incluindo depósitos ligados a fundos de pensão.
O episódio provocou protestos em Assunção, afetou empresas e trabalhadores ligados ao grupo controlador e abriu uma crise política. O presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia na quinta-feira, 5 de novembro, pouco antes de a Câmara dos Deputados aprovar por unanimidade o início de um processo de impeachment. O Congresso, porém, ainda discute os efeitos da renúncia e a continuidade do processo.
A crise também levantou questionamentos sobre a relação entre o banco, seus controladores e integrantes do governo. Peña havia mantido participação societária no grupo ligado à instituição até 2025. As autoridades investigam possíveis irregularidades na gestão do banco e na fiscalização dos recursos públicos. As responsabilidades ainda dependem de apuração.
O Paraguai não deixou automaticamente de ser um destino de investimento. Suas vantagens tributárias e condições para determinados setores continuam existindo. Mas o episódio mostra que impostos baixos não são suficientes para garantir segurança a uma operação empresarial ou a um projeto de mudança de país.
É justamente essa a reflexão que ultrapassa as fronteiras paraguaias.
A OPINIÃO DE VINÍCIUS BICALHO
Para Vinícius Bicalho, advogado especializado em imigração e fundador da Bicalho Legal Consulting P.A., uma decisão de internacionalização precisa seguir critérios rigorosos, independentemente do destino escolhido.
Paraguai, Argentina, Bolívia, Estados Unidos ou países do Oriente Médio têm legislações diferentes, mas a análise deve partir das mesmas perguntas: quais são as condições para entrar, permanecer, trabalhar e investir? Quais obrigações fiscais e regulatórias serão assumidas? Como funciona a proteção do patrimônio? E, principalmente, quais são as barreiras para sair caso o cenário mude?
No campo migratório, obter residência não significa ter autorização irrestrita para trabalhar ou empreender. Na área empresarial, encontrar impostos menores não elimina riscos bancários, societários, regulatórios e políticos.
Bicalho ressalta que o planejamento precisa considerar tanto as condições de entrada quanto as de saída. Como retirar o capital? Como encerrar uma empresa? Quais obrigações permanecem? São questões que devem ser respondidas antes da transferência de patrimônio ou da mudança de residência.
O mesmo rigor aplicado à análise de um projeto nos Estados Unidos deve ser utilizado para avaliar o Paraguai ou qualquer outro destino. O que muda é a legislação e o ambiente econômico. A necessidade de estudar os requisitos e os riscos permanece.
O chamado Efeito Paraguai deixa uma lição: internacionalizar a vida ou os negócios não é apenas buscar impostos menores ou uma promessa de facilidade. É escolher um país depois de entender como suas regras funcionam na prática.