Governo Trump processa nigeriano naturalizado em 2011, alegando que ele ocultou identidades anteriores e informações sobre seu histórico migratório; iniciativa faz parte de uma ofensiva para revogar cidadanias obtidas ilegalmente.
WASHINGTON, D.C., 15 de outubro de 2026 – Um homem naturalizado cidadão americano há 15 anos enfrenta um processo judicial que pode resultar na perda da cidadania e na possibilidade de deportação. Emmanuel Tayo Akinkunmi, nascido na Nigéria e residente em Chicago, é acusado pelo governo dos Estados Unidos de ter obtido a naturalização por meio de declarações falsas e da ocultação de informações relevantes sobre seu histórico migratório.
A ação foi apresentada em um tribunal federal de Illinois em 7 de outubro. Segundo a denúncia, Akinkunmi teria utilizado diferentes identidades em seus processos de imigração e omitido informações sobre decisões anteriores das autoridades americanas.
De acordo com o processo, antes de se identificar como Emmanuel Tayo Akinkunmi, ele teria utilizado o nome Ezekiel Aremu Adetayo. Sob essa identidade, teria abandonado seu status de residente permanente em 1993 e, posteriormente, recebido uma ordem de exclusão dos Estados Unidos. A decisão foi mantida pelo Board of Immigration Appeals, órgão administrativo responsável por recursos em matéria migratória, em 1997.
O governo alega que, depois disso, ele solicitou um novo Green Card utilizando o nome Akinkunmi. Na aplicação, teria declarado que não havia utilizado outros nomes e negado ter sido anteriormente impedido de entrar nos Estados Unidos. O pedido foi aprovado em 2000.
Anos depois, ao solicitar a cidadania americana, em 2010, Akinkunmi teria novamente negado o uso de outra identidade e a existência de uma ordem anterior de exclusão ou deportação. Ele prestou juramento de fidelidade e foi reconhecido oficialmente como cidadão americano em 8 de junho de 2011.
A acusação sustenta que ele nunca teria sido legalmente admitido como residente permanente e que, por isso, não preenchia os requisitos para obter a naturalização. As alegações ainda precisam ser examinadas pela Justiça. Até a publicação da reportagem original, não havia indicação de advogado representando Akinkunmi no processo.
A ação ocorre em meio à ampliação dos esforços do governo Trump para revisar casos de naturalização. No início de outubro, o Departamento de Justiça anunciou uma ofensiva contra 40 cidadãos naturalizados, acusados de terem obtido a cidadania de maneira ilegal ou fraudulenta. Os casos envolvem pessoas de 20 países, com idades entre 26 e 76 anos, e incluem suspeitas de fraude de identidade, casamentos fraudulentos e omissões em processos migratórios.
O procurador-geral dos Estados Unidos, Todd Blanche, descreveu a iniciativa como o maior esforço de desnaturalização da história moderna do país. A medida representa uma ampliação do foco das políticas migratórias do governo, que também passou a mirar pessoas que já concluíram o processo de naturalização.
A retirada da cidadania americana, conhecida como desnaturalização, depende de um procedimento judicial. O governo precisa demonstrar que a cidadania foi obtida ilegalmente ou mediante ocultação de fatos relevantes ou declarações deliberadamente falsas. Segundo dados citados pelo Brennan Center for Justice, entre 1990 e 2017, o governo federal iniciou, em média, cerca de 11 processos de desnaturalização por ano. Durante o primeiro mandato de Trump, entre 2017 e 2021, essa média subiu para aproximadamente 25 casos anuais.
A OPINIÃO DE VINÍCIUS BICALHO
O caso mostra que a naturalização não impede, em todas as circunstâncias, uma revisão judicial da forma como a cidadania foi obtida. Para Vinícius Bicalho, advogado especializado em imigração e fundador e CEO da Bicalho Legal Consulting P.A., é fundamental distinguir uma investigação ou acusação de uma decisão definitiva. A existência de um processo não significa que a cidadania já tenha sido revogada, nem que as alegações do governo tenham sido comprovadas.
A análise também exige atenção à diferença entre uma informação incorreta sem relevância para a decisão e uma omissão deliberada de fatos que poderiam ter alterado o resultado do pedido. A Suprema Corte americana, no caso Maslenjak v. United States, decidido em 2017, estabeleceu limites ao poder do governo nesse tipo de situação, exigindo uma relação entre a ilegalidade praticada durante o processo de naturalização e a obtenção da cidadania. Por isso, cada caso depende das provas, das circunstâncias e da avaliação judicial. O processo de Akinkunmi ainda está em andamento, e seu desfecho dependerá da capacidade do governo de sustentar juridicamente as acusações apresentadas.