Caso de green card holder registrada por engano em Nova Jersey reforça alerta sobre os riscos de um voto irregular para futuros pedidos de cidadania
WASHINGTON, D.C., 11 de agosto de 2026: Um caso ocorrido em Bergen County, no estado de Nova Jersey, reacendeu o alerta sobre uma regra que ainda gera confusão na comunidade imigrante nos Estados Unidos. Portadores de visto de não imigrante, imigrantes em processo de ajuste de status e residentes permanentes, os detentores de green card, não têm direito a votar em eleições federais e estaduais americanas. Segundo reportagem do jornal New Jersey Globe, uma moradora idosa de Dumont, detentora de green card, descobriu que estava registrada para votar após receber a visita de voluntários de campanha em sua casa. “Eu não posso votar, eu tenho green card”, teria dito a mulher, negando ter solicitado o registro.
De acordo com o levantamento citado pela reportagem, o caso está relacionado a uma falha de sistema da Comissão de Veículos Motorizados de Nova Jersey, que registrou indevidamente cerca de 6.600 não cidadãos para votar entre junho de 2023 e junho de 2024. Do total, aproximadamente 5.100 registros já foram cancelados, outros 1.450 permanecem sob revisão e menos de 400 pessoas chegaram a votar apesar do erro.
Embora o episódio tenha se originado de uma falha administrativa, advogados de imigração alertam que a responsabilidade pela regularidade do registro eleitoral recai sobre o próprio estrangeiro, independentemente de como o erro ocorreu. Nos Estados Unidos, apenas cidadãos americanos podem votar em eleições federais, incluindo para presidente, Senado e Câmara dos Deputados, e, na grande maioria dos estados, também nas eleições estaduais e municipais. Vistos de turismo, estudo, trabalho e outras categorias de não imigrantes, além de green cards de residência permanente, não conferem esse direito. Algumas poucas cidades americanas permitem, por legislação local específica, que residentes não cidadãos votem em pleitos municipais restritos, mas essa é uma exceção pontual, e não a regra.
Votar sabendo que não se tem direito a isso é crime federal, previsto no Título 18 do Código dos Estados Unidos, seção 611, e pode ser tratado tanto como uma questão criminal quanto como um obstáculo direto a benefícios de imigração. O Manual de Políticas do USCIS trata o voto ilegal como um “ato ilícito” que pesa contra a comprovação de “bom caráter moral”, exigência central para a aprovação do pedido de naturalização, o formulário N-400. Um voto irregular cometido durante o período analisado pelo USCIS, geralmente os cinco anos anteriores ao pedido de cidadania, pode ser suficiente para atrasar ou até negar o processo, mesmo quando o erro teve origem em falha de terceiros.
A situação se torna ainda mais delicada quando o próprio registro eleitoral exige que o requerente declare ser cidadão americano, como costuma acontecer em formulários vinculados ao DMV. Se essa declaração for feita conscientemente, sabendo ser falsa, o estrangeiro pode ficar permanentemente impedido de obter qualquer benefício migratório, incluindo green card e cidadania, por configurar falsa alegação de cidadania americana. O próprio USCIS já esclareceu que erros involuntários, quando a pessoa não tinha conhecimento de que a declaração era falsa, não geram automaticamente essa barreira, mas cada caso é analisado individualmente, o que reforça a importância de corrigir qualquer registro indevido o mais rápido possível.
Para o advogado licenciado nos Estados Unidos, Brasil e Portugal, professor de Direito Internacional e CEO da Bicalho Legal Consulting P.A., Vinicius Bicalho, casos como o de Nova Jersey mostram que a cautela deve começar muito antes do pedido de cidadania.
“Não importa se o imigrante nunca teve intenção de votar ou nem sabia que estava registrado. Diante da lei de imigração, o que conta é o registro em si e, principalmente, se houve voto. Por isso, quem tem visto de não imigrante, é imigrante em processo de ajuste de status ou já possui green card deve verificar periodicamente sua situação eleitoral e pedir a remoção imediata caso identifique qualquer registro indevido”, explica Bicalho.
“Um erro desse tipo, se não for corrigido a tempo, pode se transformar em um problema sério exatamente no momento em que o imigrante mais precisa demonstrar bom caráter moral, o pedido de cidadania. É melhor gastar alguns minutos conferindo o próprio registro do que arriscar anos de espera por um green card ou pela naturalização”, alerta Bicalho.
Especialistas recomendam que portadores de visto, imigrantes e residentes permanentes confirmem sua situação eleitoral diretamente no site da secretaria eleitoral do estado onde residem e, em caso de registro indevido, solicitem o cancelamento por escrito, guardando comprovante do pedido. A orientação vale especialmente para quem renovou ou obteve carteira de motorista recentemente, já que falhas como a identificada em Nova Jersey costumam se originar de sistemas automatizados do próprio DMV.
Nos Estados Unidos, o direito ao voto é reservado aos cidadãos americanos, e, para quem ainda constrói seu caminho rumo à cidadania, garantir que esse limite seja respeitado pode ser tão importante quanto qualquer outro requisito do processo de naturalização.