Como Roberto Landell de Moura foi rejeitado no Brasil e registrado no sistema americano na origem do rádio
WASHINGTON, DC (JANEIRO 22, 2026) – A história do rádio costuma ser narrada a partir de nomes associados à industrialização e à comunicação de massa, quase sempre europeus ou norte-americanos. O que permanece fora do debate é que, antes de o rádio se tornar indústria, um inventor brasileiro já havia registrado nos Estados Unidos as bases técnicas da transmissão de voz sem fio.
Esse inventor foi Roberto Landell de Moura, padre e cientista autodidata nascido em Porto Alegre. No Brasil do fim do século XIX, Landell foi tratado com desconfiança, enfrentou resistência institucional e não encontrou qualquer apoio acadêmico ou estatal para desenvolver suas pesquisas.
Suas demonstrações públicas de transmissão de voz à distância foram ignoradas por um país que ainda não possuía estrutura científica, jurídica ou industrial para absorver inovação desse tipo.
Diante desse bloqueio, Landell fez um movimento que se repetiria ao longo do século seguinte com inúmeros talentos brasileiros. Buscou nos Estados Unidos um ambiente capaz de reconhecer formalmente sua invenção.
Entre 1901 e 1904, registrou patentes no U.S. Patent Office descrevendo a transmissão da voz humana por ondas eletromagnéticas, algo substancialmente diferente da telegrafia sem fio baseada apenas em sinais codificados.
Esses registros não configuravam um produto comercial pronto, mas estabeleciam um princípio técnico central.
A possibilidade de transmitir voz inteligível pelo ar é o elemento que permitiria, anos depois, o surgimento do rádio como meio de comunicação sonora. Landell não criou uma empresa, não liderou um processo de industrialização e não participou da radiodifusão comercial, mas documentou, dentro do sistema americano, a ideia que tornaria essa indústria possível.
A importância histórica de Landell está justamente nessa fronteira entre invenção e indústria. Enquanto outros nomes ficaram associados à escala, ao capital e à popularização do rádio, Landell permanece como o inventor que antecipou o uso da voz sem fio e teve essa contribuição reconhecida juridicamente nos Estados Unidos, ainda que ignorada em seu próprio país.
Para o advogado licenciado nos Estados Unidos, Brasil e Portugal e CEO da Bicalho Legal Consulting P.A., Vinicius Bicalho, a trajetória de Landell sintetiza uma lógica recorrente na história da imigração qualificada. “O Brasil historicamente falha em absorver talentos quando a inovação exige visão de longo prazo. Já os Estados Unidos oferecem um sistema jurídico capaz de registrar e preservar a ideia, mesmo quando o inventor não consegue transformá-la em negócio”, afirma.
Ao revisitar a origem do rádio sob essa perspectiva, a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser também institucional e migratória. Landell precisou sair do Brasil para que sua invenção fosse levada a sério. E foi nos Estados Unidos que sua contribuição ficou registrada como parte da base técnica de uma das mais importantes indústrias de comunicação do século XX, conclui Bicalho.
