Polícia Federal investiga falsas uniões estáveis, enquanto autoridades americanas apuram esquema com mais de mil casamentos simulados para obtenção de green cards
WASHINGTON, D.C., 19 de agosto de 2026 – A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira a Operação Pacto Simulado para investigar um esquema que teria utilizado falsas declarações de união estável na regularização migratória de estrangeiros no Brasil.
Segundo a investigação, despachantes e recrutadores auxiliavam principalmente cidadãos angolanos e chineses na apresentação de pedidos de residência acompanhados de documentos ideologicamente falsos. Parte dos investigados atuaria desde 2019.
Foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro. Os envolvidos poderão responder por falsidade ideológica, associação criminosa e outros crimes identificados durante a investigação.
A operação brasileira ocorre uma semana depois de o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciar o indiciamento de 11 pessoas acusadas de organizar mais de mil casamentos fraudulentos ao longo de uma década.
Não há informação de ligação entre os casos, mas as investigações revelam a atenção dos dois países sobre o uso de relacionamentos simulados para obter benefícios migratórios.
“Esse caso mostra que a relação entre Brasil e Estados Unidos não deve se limitar ao comércio. A cooperação precisa avançar também em áreas como imigração e segurança”, afirma o advogado de imigração e professor Vinícius Bicalho, da Bicalho Legal Consulting P.A.
No esquema investigado nos Estados Unidos, estrangeiros, principalmente chineses, teriam pago até US$ 100 mil por casamentos arranjados. Segundo a acusação, o grupo fabricava fotografias, contas bancárias, declarações de impostos e outros documentos para apresentar os relacionamentos como legítimos ao U.S. Citizenship and Immigration Services, o USCIS.
“A existência de uma certidão de casamento não transforma uma relação simulada em legítima. As autoridades verificam se o casal realmente pretendia construir uma vida em comum desde o início”, explica Bicalho.
Nos Estados Unidos, o casamento realizado para contornar a legislação migratória pode resultar em processo criminal, prisão, multa, rejeição do pedido de residência e deportação. A fraude matrimonial pode levar a até cinco anos de prisão e multa de até US$ 250 mil, além de acusações relacionadas à falsificação de documentos, declarações falsas e fraude de visto.
A ligação com o Brasil é especialmente importante porque brasileiros interessados em viver nos Estados Unidos podem ser abordados por intermediários que prometem residência rápida por meio de casamento arranjado ou documentação fabricada.
Mesmo que o recrutamento, o pagamento ou a preparação dos documentos ocorram no Brasil, a apresentação de informações falsas em um processo migratório americano pode levar à responsabilização nos Estados Unidos. Uma promessa de regularização rápida pode terminar em prisão, deportação e impedimento de retornar ao país.