Estratégia migratória é juridicamente possível, mas exige coerência documental, vínculos reais e planejamento consular
WASHINGTON, DC (FEVEREIRO 19, 2026) – O uso do Paraguai como alternativa migratória para acesso ao visto E-2 por brasileiros tem crescido de forma consistente nos últimos anos, especialmente entre investidores que buscam residência legal nos Estados Unidos por meio de atividade empresarial. A razão é objetiva: o Brasil não possui tratado E-2 com os EUA, enquanto o Paraguai é país signatário do tratado de comércio e navegação que permite a elegibilidade ao visto de investidor.
Na prática, brasileiros têm buscado residência permanente e posterior cidadania paraguaia como estratégia jurídica para se tornarem elegíveis ao E-2. Uma vez adquirida uma nacionalidade de país com tratado, o investidor pode estruturar empresa nos Estados Unidos, desde que comprove investimento substancial, operação econômica real, origem lícita dos recursos e controle direto do negócio.
Do ponto de vista legal, essa estratégia não é automaticamente irregular. No entanto, ela envolve um risco projetável que precisa ser considerado desde a origem do planejamento migratório. Autoridades consulares americanas analisam a substância da nacionalidade apresentada, o histórico migratório, os vínculos reais com o país emissor do passaporte e a coerência econômica do projeto empresarial.
O advogado Vinicius Bicalho, fundador e CEO da Bicalho Legal Consulting P.A., explica que a análise consular vai além do documento formal de cidadania. Segundo Vinicius Bicalho, quando há naturalização recente em país com tratado E-2, o consulado tende a observar com maior rigor elementos como residência efetiva, integração econômica, histórico fiscal e legitimidade do planejamento internacional do investidor.
Outro ponto sensível é a intenção migratória indireta. Quando a cidadania é obtida exclusivamente como instrumento para acesso ao E-2, sem presença real no país de origem da nova nacionalidade, o processo pode ser submetido a escrutínio elevado, inclusive com questionamentos sobre a autenticidade dos vínculos e da estrutura empresarial nos Estados Unidos.
Isso não significa que o Paraguai deva ser descartado como alternativa migratória. Pelo contrário, ele se consolidou como uma via juridicamente possível dentro do planejamento migratório internacional de brasileiros com perfil empresarial. Contudo, trata-se de uma estratégia que exige projeção de risco consular, planejamento jurídico internacional e documentação robusta para evitar fragilidades na entrevista do visto.
A consolidação do Paraguai como rota estratégica revela uma nova engenharia migratória na América Latina, em que investidores buscam jurisdições com tratados ativos para acessar o mercado americano. Ainda assim, a diferença entre uma estratégia legítima e um processo vulnerável está diretamente ligada à substância da nacionalidade, à operação empresarial real e à coerência migratória de longo prazo.
